Escrita por quatro huguenotes que
faziam parte da França Antártica, uma colônia francesa fundada por Nicolau
Durand de Villegaignon na baía da Guanabara. Com base nessa declaração de fé,
Villegaignon os condenou à morte, executando três deles. A confissão compõe-se
de 17 parágrafos que tratam dos seguintes temas: as pessoas da Trindade, os
sacramentos da Ceia e do batismo, o livre arbítrio, a autoridade dos
sacerdotes, casamento e celibato, a intercessão dos santos e orações pelos
mortos.
Parágrafo inicial:
“Segundo a doutrina de São Pedro Apóstolo, em sua primeira epístola, todos
os cristãos devem estar sempre prontos para dar a razão da esperança que neles
há, e isso com toda doçura e benignidade. Nós, abaixo assinados, senhor de
Villegaignon, unanimemente (segundo a medida de graça que o Senhor nos há
concedido), damos razão a cada ponto, segundo nos haveis apontado e ordenado”.
CONFISSÃO DE FÉ DA GUANABARA (1557)
Segundo a doutrina de
S. Pedro Apóstolo, em sua primeira epístola, todos os cristãos devem
estar sempre prontos para dar razão da esperança que neles há, e isso com
toda a doçura e benignidade, nós abaixo assinados, Senhor de Villegaignon,
unanimemente (segundo a medida de graça que o Senhor nos tem concedido) damos
razão, a cada ponto, como nos haveis apontado e ordenado, e começando no
primeiro artigo:
I. Cremos em um só Deus,
imortal, invisível, criador do céu e da terra, e de todas as coisas, tanto visíveis
como invisíveis, o qual é distinto em três pessoas: o Pai, o Filho e o Santo
Espírito, que não constituem senão uma mesma substância em essência eterna
e uma mesma vontade; o Pai, fonte e começo de todo o bem; o Filho, eternamente
gerado do Pai, o qual, cumprida a plenitude do tempo, se manifestou em carne ao
mundo, sendo concebido do Santo Espírito, nasceu da virgem Maria, feito sob a
lei para resgatar os que sob ela estavam, a fim de que recebêssemos a adoção
de próprios filhos; o Santo Espírito, procedente do Pai e do Filho, mestre de
toda a verdade, falando pela boca dos profetas, sugerindo as coisas que foram
ditas por nosso Senhor Jesus Cristo aos apóstolos. Este é o único Consolador
em aflição, dando constância e perseverança em todo bem.
Cremos que é mister somente adorar e perfeitamente amar, rogar e invocar a
majestade de Deus em fé ou particularmente.
II. Adorando nosso Senhor Jesus
Cristo, não separamos uma natureza da outra, confessando as duas naturezas,
a saber, divina e humana nele inseparáveis.
III. Cremos, quanto ao Filho de Deus
e ao Santo Espírito, o que a Palavra de Deus e a doutrina apostólica, e o
símbolo,[3]
nos ensinam.
IV. Cremos que nosso Senhor Jesus
Cristo virá julgar os vivos e os mortos, em forma visível e humana como
subiu ao céu, executando tal juízo na forma em que nos predisse no capítulo
vinte e cinco de Mateus, tendo todo o poder de julgar, a Ele dado pelo Pai,
sendo homem.
E, quanto ao que dizemos em nossas orações, que o Pai aparecerá enfim na
pessoa do Filho, entendemos por isso que o poder do Pai, dado ao Filho, será
manifestado no dito juízo, não todavia que queiramos confundir as pessoas,
sabendo que elas são realmente distintas uma da outra.
V. Cremos que no santíssimo
sacramento da ceia, com as figuras corporais do pão e do vinho, as almas fiéis
são realmente e de fato alimentadas com a própria substância do nosso Senhor
Jesus, como nossos corpos são alimentados de alimentos, e assim não entendemos
dizer que o pão e o vinho sejam transformados ou transubstanciados no seu
corpo, porque o pão continua em sua natureza e substância, semelhantemente ao
vinho, e não há mudança ou alteração.
Distinguimos todavia este pão e vinho do outro pão que é dedicado ao uso
comum, sendo que este nos é um sinal sacramental, sob o qual a verdade é
infalivelmente recebida. Ora, esta recepção não se faz senão por meio da fé
e nela não convém imaginar nada de carnal, nem preparar os dentes para comer,
como santo Agostinho nos ensina, dizendo: “Porque preparas tu os dentes e o
ventre? Crê, e tu o comeste.”
O sinal, pois, nem nos dá a verdade, nem a coisa significada; mas Nosso
Senhor Jesus Cristo, por seu poder, virtude e bondade, alimenta e preserva
nossas almas, e as faz participantes da sua carne, e de seu sangue, e de todos
os seus benefícios.
Vejamos a interpretação das palavras de Jesus Cristo: “Este pão é meu
corpo.” Tertuliano, no livro quarto contra Marcião, explica estas palavras
assim: “este é o sinal e a figura do meu corpo.”
S. Agostinho diz: “O Senhor não evitou dizer: — Este é o meu corpo,
quando dava apenas o sinal de seu corpo.”
Portanto (como é ordenado no primeiro cânon do Concílio de Nicéia),
neste santo sacramento não devemos imaginar nada de carnal e nem nos distrair
no pão e no vinho, que nos são neles propostos por sinais, mas levantar nossos
espíritos ao céu para contemplar pela fé o Filho de Deus, nosso Senhor Jesus,
sentado à destra de Deus, seu Pai.
Neste sentido podíamos jurar o artigo da Ascensão, com muitas outras
sentenças de Santo Agostinho, que omitimos, temendo ser longas.
VI. Cremos que, se fosse necessário
pôr água no vinho, os evangelistas e São Paulo não teriam omitido uma
coisa de tão grande conseqüência.
E quanto ao que os doutores antigos têm observado (fundamentando-se
sobre o sangue misturado com água que saiu do lado de Jesus Cristo, desde que
tal observância não tem fundamento na Palavra de Deus, visto mesmo que depois
da instituição da Santa Ceia isso aconteceu), nós não podemos hoje admitir
necessariamente.
VII. Cremos que não há outra
consagração senão a que se faz pelo ministro, quando se celebra a ceia,
recitando o ministro ao povo, em linguagem conhecida, a instituição desta ceia
literalmente, segundo a forma que nosso Senhor Jesus Cristo nos prescreveu,
admoestando o povo quanto à morte e paixão do nosso Senhor. E mesmo, como diz
santo Agostinho, a consagração é a palavra de fé que é pregada e recebida
em fé. Pelo que, segue-se que as palavras secretamente pronunciadas sobre os
sinais não podem ser a consagração como aparece da instituição que nosso
Senhor Jesus Cristo deixou aos seus apóstolos, dirigindo suas palavras aos seus
discípulos presentes, aos quais ordenou tomar e comer.
VIII. O santo sacramento da ceia não
é alimento para o corpo como para as almas (porque nós não imaginamos
nada de carnal, como declaramos no artigo quinto) recebendo-o por fé, a qual não
é carnal.
IX. Cremos que o batismo é
sacramento de penitência, e como uma entrada na igreja de Deus, para sermos
incorporados em Jesus Cristo. Representa-nos a remissão de nossos pecados
passados e futuros, a qual é adquirida plenamente, só pela morte de nosso
Senhor Jesus.
De mais, a mortificação de nossa carne aí nos é representada, e a
lavagem, representada pela água lançada sobre a criança, é sinal e selo do
sangue de nosso Senhor Jesus, que é a verdadeira purificação de nossas almas.
A sua instituição nos é ensinada na Palavra de Deus, a qual os santos apóstolos
observaram, usando de água em nome do Pai, do Filho e do Santo Espírito.
Quanto aos exorcismos, abjurações de Satanás, crisma, saliva e sal, nós os
registramos como tradições dos homens, contentando-nos só com a forma e
instituição deixada por nosso Senhor Jesus.
X. Quanto ao livre arbítrio,
cremos que, se o primeiro homem, criado à imagem de Deus, teve liberdade e
vontade, tanto para bem como para mal, só ele conheceu o que era livre arbítrio,
estando em sua integridade. Ora, ele nem apenas guardou este dom de Deus, assim
como dele foi privado por seu pecado, e todos os que descendem dele, de sorte
que nenhum da semente de Adão tem uma centelha do bem.
Por esta causa, diz São Paulo, o homem natural não entende as coisas que
são de Deus. E Oséias clama aos filho de Israel: “Tua perdição é de ti,
ó Israel.” Ora isto entendemos do homem que não é regenerado pelo Santo Espírito.
Quanto ao homem cristão, batizado no sangue de Jesus Cristo, o qual
caminha em novidade de vida, nosso Senhor Jesus Cristo restitui nele o livre arbítrio,
e reforma a vontade para todas as boas obras, não todavia em perfeição,
porque a execução de boa vontade não está em seu poder, mas vem de Deus,
como amplamente este santo apóstolo declara, no sétimo capítulo aos Romanos,
dizendo: “Tenho o querer, mas em mim não acho o realizar.”
O homem predestinado para a vida eterna, embora peque por fragilidade
humana, todavia não pode cair em impenitência.
A este propósito, S. João diz que ele não peca, porque a eleição
permanece nele.
XI. Cremos que pertence só à
Palavra de Deus perdoar os pecados, da qual, como diz santo Ambrósio, o
homem é apenas o ministro; portanto, se ele condena ou absolve, não é ele,
mas a Palavra de Deus que ele anuncia.
Santo Agostinho, neste lugar diz que não é pelo mérito dos homens que os
pecados são perdoados, mas pela virtude do Santo Espírito. Porque o Senhor
dissera aos seus apóstolos: “recebei o Santo Espírito;” depois acrescenta:
“Se perdoardes a alguém os seus pecados,” etc.
Cipriano diz que o servo não pode perdoar a ofensa contra o Senhor.
XII. Quanto à imposição das mãos,
essa serviu em seu tempo, e não há necessidade de conservá-la agora, porque
pela imposição das mãos não se pode dar o Santo Espírito, porquanto isto só
a Deus pertence.
No tocante à ordem eclesiástica, cremos no que S. Paulo dela escreveu na
primeira epístola a Timóteo, e em outros lugares.
XIII. A separação entre o homem e a
mulher legitimamente unidos por casamento não se pode fazer senão por
causa de adultério, como nosso Senhor ensina (Mateus 19:5). E não somente se
pode fazer a separação por essa causa, mas também, bem examinada a causa
perante o magistrado, a parte não culpada, se não podendo conter-se, deve
casar-se, como São Ambrósio diz sobre o capítulo sete da Primeira Epístola
aos Coríntios. O magistrado, todavia, deve nisso proceder com madureza de
conselho.
XIV. São Paulo, ensinando queo
bispo deve ser marido de uma só mulher, não diz que não lhe seja lícito
tornar a casar, mas o santo apóstolo condena a bigamia a que os homens daqueles
tempos eram muito afeitos; todavia, nisso deixamos o julgamento aos mais
versados nas Santas Escrituras, não se fundando a nossa fé sobre esse ponto.
XV. Não é lícito votar a Deus, senão
o que ele aprova. Ora, é assim que os votos monásticos só tendem à
corrupção do verdadeiro serviço de Deus. É também grande temeridade e
presunção do homem fazer votos além da medida de sua vocação, visto que a
santa Escritura nos ensina que a continência é um dom especial (Mateus 15 e 1
Coríntios 7). Portanto, segue-se que os que se impõem esta necessidade,
renunciando ao matrimônio toda a sua vida, não podem ser desculpados de
extrema temeridade e confiança excessiva e insolente em si mesmos.
E por este meio tentam a Deus, visto que o dom da continência é em alguns
apenas temporal, e o que o teve por algum tempo não o terá pelo resto da vida.
Por isso, pois, os monges, padres e outros tais que se obrigam e prometem viver
em castidade, tentam contra Deus, por isso que não está neles o cumprir o que
prometem. São Cipriano, no capítulo onze, diz assim: “Se as virgens se
dedicam de boa vontade a Cristo, perseverem em castidade sem defeito; sendo
assim fortes e constantes, esperem o galardão preparado para a sua virgindade;
se não querem ou não podem perseverar nos votos, é melhor que se casem do que
serem precipitadas no fogo da lascívia por seus prazeres e delícias.” Quanto
à passagem do apóstolo S. Paulo, é verdade que as viúvas tomadas para servir
à igreja, se submetiam a não mais casar, enquanto estivessem sujeitas ao dito
cargo, não que por isso se lhes reputasse ou atribuísse alguma santidade, mas
porque não podiam bem desempenhar os deveres, sendo casadas; e, querendo casar,
renunciassem à vocação para a qual Deus as tinha chamado, contudo que
cumprissem as promessas feitas na igreja, sem violar a promessa feita no
batismo, na qual está contido este ponto: “Que cada um deve servir a Deus na
vocação em que foi chamado.” As viúvas, pois, não faziam voto de continência,
senão porque o casamento não convinha ao ofício para que se apresentavam, e não
tinha outra consideração que cumpri-lo. Não eram tão constrangidas que não
lhes fosse antes permitido casar que se abrasar e cair em alguma infâmia ou
desonestidade.
Mas, para evitar tal inconveniência, o apóstolo São Paulo, no capítulo
citado, proíbe que sejam recebidas para fazer tais votos sem que tenham a idade
de sessenta anos, que é uma idade normalmente fora da incontinência.
Acrescenta que os eleitos só devem ter sido casados uma vez, a fim de que por
essa forma, tenham já uma aprovação de continência.
XVI. Cremos que Jesus Cristo é o
nosso único Mediador, intercessor e advogado, pelo qual temos acesso ao
Pai, e que, justificados no seu sangue, seremos livres da morte, e por ele já
reconciliados teremos plena vitória contra a morte.
Quanto aos santos mortos, dizemos que desejam a nossa salvação e o
cumprimento do Reino de Deus, e que o número dos eleitos se complete; todavia,
não nos devemos dirigir a eles como intercessores para obterem alguma coisa,
porque desobedeceríamos o mandamento de Deus. Quanto a nós, ainda vivos,
enquanto estamos unidos como membros de um corpo, devemos orar uns pelos outros,
como nos ensinam muitas passagens das Santas Escrituras.
XVII. Quanto aos mortos, São
Paulo, na Primeira Epístola aos Tessalonicenses, no capítulo quatro, nos proíbe
entristecer-nos por eles, porque isto convém aos pagãos, que não têm esperança
alguma de ressuscitar. O apóstolo não manda e nem ensina orar por eles, o que
não teria esquecido se fosse conveniente. S. Agostinho, sobre o Salmo 48, diz
que os espíritos dos mortos recebem conforme o que tiverem feito durante a
vida; que se nada fizeram, estando vivos, nada recebem, estando mortos.
Esta
é a resposta que damos aos artigo por vós enviados, segundo a medida e porção da fé, que Deus nos deu,
suplicando que lhe praza fazer que em nós não seja morta, antes produza frutos
dignos de seus filhos, e assim, fazendo-nos crescer e perseverar nela, lhe
rendamos graças e louvores para sempre.
Assim seja.
Jean
du Bourdel,
Matthieu Verneuil, Pierre
Bourdon, André la Fon.